CONVERSANDO COM MEU EU


Ponho-me a escrever no quarto, aceitando apenas o barulho da chuva. Essa sim, é uma companhia bem apropriada. Aliás, ela se comporta magnificamente. Soa em meus ouvidos como complemento da minha inspiração. Refresca minha alma com seu ruído discreto e ao mesmo tempo intenso e marcante. Ela não passa despercebida, mas também não me atrapalha. Ela vem acompanhada de um céu cinzento, que as pessoas cismam em chamá-lo de “tempo feio”. Mas, se tem alguém que lhe admira fortemente, sou eu. Ele é encantador. Não é sorridente, alegre e saltitante como o céu azul. Ele carrega mistérios. É cinza, portanto é neutro, combinando com quase tudo, em um cenário de soberania e altivez. Se repararmos bem, ele chega a ser cintilante e não é triste como pensam, mas elegante, honesto e firme.

Estar sozinho é essencial para pensar sem interferências, para opinar sem ser criticado, para resmungar, reclamar, rir e especular.
Há tempos, não escrevo. E ultimamente, ando sentindo esta necessidade, exageradamente. Talvez eu esteja enjoada do ser humano e das suas conversas fúteis, de amigos normais com respostas automáticas e totalmente previsíveis. Talvez, eu deva sentir que existo dentro de mim.
Acontece que muitas das vezes, ajudamos outras pessoas, absorvemos problemas alheios, saímos para festejar, brigamos e criticamos atitudes erradas de pessoas em nosso convívio, e puxa vida, esquecemos de nós mesmos! Eu precisava de um tempo comigo, eu precisava conversar com meu Eu.
Chega de pensar nos outros, de ajudar, de querer saber, de ligar, de ouvir. Hoje, eu apenas me quero! E não aceito interrupções.
Quando estou acompanhada de mim mesma, penso no que eu quero, falo sozinha, canto, revejo fotos antigas, leio, faço tudo ou simplesmente, faço nada. É bom fazer nada de vez em quando. Muitas das vezes é extremamente necessário. Dar um pause, apertar o stop e até ejetar coisas que estavam guardadas lá dentro do seu Eu, e você, por algum motivo, não teve tempo de pensar sobre isso, mandando-o definitivamente para o espaço.
Precisamos nos dedicar ao nosso bem estar e por vezes, estamos tão atribulados com afazeres do dia-a-dia, com problemas do cotidiano, contas a pagar, compromissos e obrigações, que não lembramos o que nós somos e o que realmente precisamos.
Não basta abraçar o mundo se você não consegue se abraçar, não adianta ser eficiente no trabalho, ótima mãe, filha perfeita e esposa exemplar, se você é relaxada consigo mesma. Não apenas em aspectos estéticos, mas lá dentro. Lá no fundo tem uma voz que clama por atenção e quer ser ouvida, quer ser cuidada, quer ser sentida. Hoje eu sou minha e de mais ninguém.

Lybia de Oliveira

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